Mário de Andrade
e a divina preguiça

Roberto Gomes
Mário de
Andrade tinha 25 anos quando escreveu um texto de três páginas que publicou no
jornal paulistano A Gazeta no dia 3 de setembro de 1918. O título: A
divina preguiça. É um texto pouco citado e, desconfio,
pouco lido. O que é curioso, já que a exclamação de Macunaíma – Aí, que
preguiça! – é repetida como um bordão consagrado sempre que se fala a
respeito do herói sem nenhum caráter. O romance Macunaíma foi publicado
em 1928, portanto Mário teve pelo menos dez anos para virar e revirar em sua
mente as idéias que lançou no artigo em que sintetiza uma crítica ao trabalho,
um elogio do ócio e uma divinização da preguiça. Mas não se trata de qualquer
preguiça, nem de qualquer ócio ou de qualquer trabalho.
A data em que o artigo foi publicado é importante, pois na Europa a I Guerra Mundial ainda rugia – terminaria dentro de três meses. O horizonte a partir do qual Mário enfoca a questão são os descaminhos que levaram à guerra e os princípios segundo os quais se pensa a civilização. Por isso o artigo inicia lembrando a oposição que habitualmente é feita entre momentos “de progresso, de estacionamento e de eras em que a civilização volta atrás”, equívoco que Mário combate. “Na passagem das civilizações – diz ele – como na própria vida, tudo é marchar”.
Um dos sintomas
desses descaminhos, anteriores “ao famigerado agosto de
Mário,
“folheando as eruditas paginas de Austregésilo sobre a ‘Preguiça patológica’”,
ri dos cientistas. Lembra que a loucura, ao longo da história, teria sido para
alguns um dom divino e para outros um pecado mortal; agora, estaria acuada,
“reduzida a um morbo de nova espécie!”
A preguiça
deixa de ter a nobreza vinda dos deuses e o peso trágico derivado das misérias
humanas. Perdeu a grandeza. Já não seria possível agradecer seu usufruto aos
deuses ou penitenciar-se nos confessionários. “Sem regalo nem culpa, resumia-se
a uma doença!” Os preguiçosos eram doentes sem grandeza e nada se esperava
deles ou da preguiça. Toda “mandranice” se reduzia ao “mesmo morbo”.
É interessante
como, no início do século, Mário desenvolve uma análise que só será pensada
plenamente após a década de 1960, quando se tomará consciência dos mecanismos
através dos quais o que ameaça ou contradiz o projeto
capitalista deverá ser apontado como entrave à disciplina dos corpos. Isso só
se ouvirá com Marcuse, Foucault etc. Há antecedentes, é claro. Um deles, O
direito à preguiça, publicado em 1848, de Paul Lafargue,
genro gaiato de Karl Marx. E vale lembrar que, em 1882, Machado de Assis, no
notável O Alienista, havia apontado o exercício de poder que parece
umbilicalmente colado ao discurso científico. A fabricação do louco, em Machado
de Assis, passa pelo exercício de poder do psiquiatra positivista.
Mário e Machado
estão, nesse caso, décadas antes de seu tempo.
Assim, reduzida
a uma doença, a preguiça deve ser calada. E curada, talvez em estações de
águas. Depois dessa terapia, ironiza Mário: “a humanidade voltaria ao labutar
diuturno da vida!”
Mário ressalta
que em diferentes momentos da história a preguiça foi vista de forma diversa.
Na Grécia, por exemplo, e em Roma. O ócio era aí respeitado, pois se sabia que
era a partir dele que os poetas e filósofos criavam literatura e pensamento. O
conhecimento, seja na geometria ou na engenharia, precisava não apenas de
mão-de-obra e de muito suor, mas também de quem pudesse resolver questões aparentemente
desvinculadas de qualquer aplicação prática. Como se sabe, os gregos tinham
grande desprezo pelos trabalhos manuais, o que lhes permita uma sociedade
escravocrata. E sabiam que, ao se tornarem livres do trabalho servil, os homens
se tornaram capazes de criar artes plásticas ou literárias, ciência e
conhecimento. Aristóteles e Platão assinalam com clareza o papel do ócio na
criação artística e filosófica. Mário pensa da mesma forma ao dizer que a arte
“nasceu porventura dum bocejo sublime” e o “belo e a arte são a descendência
que perpetua e enaltece o ócio”.
Com o
cristianismo – que, contrariamente ao escravismo grego e romano, postula a
igualdade teórica entre todos os homens, filhos e imagem de um mesmo Deus – a
preguiça vai sofrer um deslocamento. Foi transformada em pecado. “Mas, diz
Mário, já não é a mesma preguiça”. Ela é um vício quando se torna
enfraquecimento, tibieza, o abandono das “lutas e das porfias”. Essa “inércia
lânguida” é a porta aberta aos pecados. É isso que o cristianismo combate, mas
devemos lembrar que, no isolamento dos mosteiros, monges se dedicam a longos
momentos de reflexão, produzindo textos religiosos, filosóficos, copiando e
ilustrando textos, reinventando a pintura, o conhecimento, até alcançar os
patamares a que chegou a filosofia e a pintura no século XIII.
A necessidade
de se sentir livre do trabalho servil é essencial, sabem os medievais, para a
geração do conhecimento, tanto que esse irá renascer quando o fundamentalismo
dos primeiros séculos se abrandar. O Renascimento
recuperará o ideal clássico grego ao final desse longo processo.
Mário, diante
dos desastres da guerra – movida por ambição, ganância e desejo de poder – se
recusa a abrir mão da preguiça. “Mil vezes não!” exclama ele. Justamente nesse
momento em que se anseia pelo seu fim, poderá ocorrer a transformação civilizatória “para que o idealismo floresça e as ilusões
fecundem”. Seria o “Sésamo, abre-te” do qual ele
fala.
Portanto, nada
de dar ouvidos aos “psiquiatras” que “querem trazer à preguiça mais essa
qualificação de doentia, redimindo os ócios culposos, vulgarizando os ócios
salutares! Revoltemo-nos! A preguiça não pode ser reduzida a uma doença!”
A preguiça tem
um papel fundamental a desempenhar, portanto. A divina
preguiça, criadora, bocejo sublime, será a parteira dos novos tempos.
No entanto, se
Mário escrevesse, não em 27 de agosto de 1918, mas nessa morna quinta-feira de
19 de novembro de 2009, penso que ele teria um problema a mais.
Hoje circula
muita desconversa a respeito do assunto. O chamado mundo corporativo – que se
apropriou de algumas categorias com as quais a filosofia pensou a questão do
trabalho e do ócio – vulgariza um discurso que, desinteressado do verdadeiro
ócio e da divina preguiça, busca transformar trabalhadores em criaturas maleáveis,
acomodadas às felicidades do consumo, ao projeto de ganhar mais, ter prestígio
e sucesso. Enfim, ócio incorporado à produção.
Trata-se de uma
perversão da divina preguiça. Imagino que Mário de Andrade reclamaria. É
preciso estar alerta: o ócio e a preguiça têm um valor absoluto, caso contrário se perdem como instrumento de manipulação nas
mãos de quem manda.
A divina
preguiça injeta, nas ações humanas, um antídoto contra toda servidão ao
trabalho. É o espaço aberto à criatividade, à liberdade, capaz de dar aos
homens a sensação de plenitude que só o reencontro de si mesmo pode
proporcionar. Sem lucros e sem utilidades oportunistas – apenas pela realização
do que há de melhor no ser humano. Pouco importa que seja exercida no domínio
da técnica, da ciência, das artes ou do conhecimento de si mesmo, aquilo que os
gregos chamavam de autonomia.
Eis onde nos
levam as intuições geniais que Mário de Andrade lançou em seu artigo de 1918.
Agora, se
alguém ainda dirige à preguiça ou ao ócio um olhar de desconfiança, lembro mais
um paradoxo: não é fácil encontrarmos quem tenha trabalhado mais do que Mário
de Andrade. Ou quem trabalhou mais do que Picasso ou Paster.
Mas é um
trabalho de outra ordem – erotizado, como dizia Marcuse, ou, “no convívio da divina
Preguiça”, como escreveu Mário.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com