Aflições à beira
do gramado

Roberto Gomes
Há um mito
curitibano segundo o qual, às vésperas da Copa de 70, dois jornalistas locais,
ambos com respeitáveis dotes literários, deram-se ao trabalho de escrever um
livro provando por todas as equações possíveis que aquele time estava destinado
ao fracasso. É o que se diz, advirto, pois nunca vi nem li o tal livro, que os
autores teriam recolhido, segundo a mesma lenda, após o tri-campeonato.
A polêmica sobre
a seleção era grande na época e talvez hoje seja difícil de ser compreendida. Uns
criticavam o uso que a ditadura militar fazia do futebol, cujo símbolo era o
general de plantão, Geisel, segurando um radinho de pilha no ouvido – João
Saldanha, o ídolo da esquerda, estava fora; Dario e Zagalo estavam dentro. Esquerdistas
de várias tonalidades se enfureciam com a politicagem – se dizia: exploração
ideológica da seleção – feita pela ditadura. Por isso muitos escolheram torcer contra
a seleção, vendo aí um modo de contestar o regime – aliás, na época, tudo tinha
que contestar o regime, fosse a escolha de uma marca
de refrigerante, de um filme ou de uma das possibilidades do Kamassutra.
No entanto,
aquela seleção ficaria para a história como a melhor de todos os tempos. Nem os
críticos mais ranhetas do regime ditatorial puderam resistir: foi um show nos
campos do México. Engolimos o Zagalo, os generais, o Dario, o escanteio que
deram no João Saldanha, e saímos por aí comemorando, pois aquela Copa do mundo também
era nossa.
No dia 11 próximo
começa outra epopéia. Sem generais de plantão, mas com governantes e
primeiras-damas dando adeusinho para a seleção e esperando, na volta, receber
um time hexa-campeão e uma taça repleta de votos.
Mas, se não há generais, há o Dunga, símbolo de uma seleção, a de 1994, que nos
fez festejar o título mais medíocre de todos os tempos. Se a seleção atual vencer,
servirá para provar que time brasileiro não precisa de técnico, tese, segundo
dizem, defendida por um dos autores daquele livro de 1970 do qual falei acima.
A verdade é
que, em 1994, um grupo de brucutus dava pontapés e carrinhos e coube a um gênio,
Romário, e a um craque, Bebeto, levar o time nas costas. Comemoramos com um gosto
amargo na boca. Mas vale lembrar que mesmo aquela Copa foi vencida pelo
talento. Claro, isso se não levarmos em conta os três jogadores decisivos para
nossa vitória: Baresi, Massaro e Baggio.
Depois, vivemos
o fracasso de uma seleção brilhante aos olhos de todos – brasileiros ou não –, a
de 1982. Era unanimidade: estava no papo, repetíamos, e todos concordavam. Até
hoje há quem não aceite discussão: foi a melhor – depois daquelas de 1958 e
1970, é claro.
Em 1998, ocorreu
o desmanche do Ronaldo e entregamos uma Copa aos franceses. Um desgosto
metafísico, uma impossibilidade lógico-matemática. Ficamos imaginando que
forças ocultas teriam desfibrado nossa seleção daquela forma. Nem Descartes entenderia.
Em 2002, com
Ronaldo sem chiliques, embora gordote e resfolegante,
derrubamos a Alemanha. Festa nacional com ares de vingança, talvez para
compensar o papelão que faríamos em seguida, em 2006, a Copa da farra pública e
notória.
O fato é que hoje
voltam à cena os mesmos personagens e símbolos. Bandeiras, camisetas, bonés,
faixas, comerciais de cerveja. E velhas discussões. Futebol arte ou futebol
força? Jogar para ganhar ou para dar show? O gol é um detalhe, como disse o
retranqueiro Parreira, ou é algo essencial? Concentração ganha jogo? Sexo ajuda
ou atrapalha aos atletas? Aliás, fico me perguntando por qual razão as
discussões sobre futebol sempre envolvem idéias que se excluem. Se sexo
atrapalhasse jogador, Garrincha teria sido no máximo um Dunga.
Tudo muito
antigo, inclusive nossa aflição. Com Dunga e um esquadrão de volantes medianos,
lá vamos nós sem o Ganso e o Neymar. 190 milhões em
ação. Exigimos duas coisas: show e espírito de luta. Afinal, o futebol é, de todas as artes, a mais bela e a mais pacífica simulação
de uma guerra. O perigo é que na África tem muita zebra.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com