A Vila é um marasmo só
Roberto Gomes
Como se sabe, o bar do
cego Tião é um celeiro de teorias e debates. Nas suas mesas se discute desde a
quantidade de anjos que caberiam numa cabeça de alfinete até o número de
neurônios ativos na cabeça de Bush Jr.
Ávidos de saber e
polêmica, os freqüentadores do boteco estão vivendo um momento de apatia. Tião,
que guarda um porrete ao lado do balcão para apartar brigas, hoje manipula um
modesto mata-moscas. Com perícia incomum, é verdade. Pelo bater de asas é capaz
de espatifar qualquer mosca que se aproxime do vidro de rolmops.
Dr. Asclépio Plúmbeo Da
Vênia, o causídico da Vila, tão palavroso e latinesco, anda murcho, não sabe em
quem irá votar – “a quem prestigiarei com meu sufrágio”, na sua língua
empolada. Só não deixou, é claro, de namorar várias senhoras disponíveis, embora
tenha desistido de Mariinha Teles, que quis negociar seus favores em troca de
voto.
Laurinho Telefone, que em
campanhas anteriores se dependurava ao celular fazendo conchavos, hoje se
dedica a teorias diversas. A seu ver, as eleições atuais sofrem do efeito
“Mister Hyde”. Como sabem os leitores, doutor Jekyll, sujeito pacato, se transforma, na novela de Robert
Louis Stevenson, O médico e o monstro, no
brutal mister Hyde.
- É o que ocorre, diz
Laurinho, quando o recém-eleito sobe a rampa do Palácio Alvorada.
- É instantâneo? indagou Dr.
Asclépio, que ama detalhes.
- Não. Trata-se de um
processo, explicou Laurinho, que, como se vê, já teve fumaças dialéticas em seu
passado. Começa na subida da rampa, agrava-se quando o eleito recebe a faixa e
se instala quando ele chega ao gabinete presidencial.
- É irreversível? quis
saber o cego Tião.
Neste momento, Manezinho Pinico (toca este instrumento na banda local,
donde o apelido), chegou da rua aos berros:
- Lá vêm eles! Lá vêm eles!
O cego Tião fechou as
portas do boteco e todos fizeram silêncio. Lá de fora veio o barulho de carros,
de buzinas, de música, de gritos de viva. Os fogos começaram a espocar. Manezinho Pinico, traumatizado, enfiou-se atrás do balcão.
Após cinco minutos de
barulheira, o silêncio voltou. Tião abriu a porta. Laurinho retomou a discussão.
- É simples. O candidato (doutor
Jekyll), cheio de intenções generosas, se transforma
em governante (mister Hyde) e passa a desdizer tudo
que disse e a fazer o avesso do prometido. O princípio, repetido pelos militantes
brucutus, reza que “ao chegar ao poder, tudo muda”.
Asclépio comentou:
- Verdade. O Fernando II mandou
que esquecessem o que havia escrito.
- Certo – completou
Laurinho –. Já o Lula Primeiro e Único, sem coisas
escritas para negar, avisou que jamais fora socialista e adotou o neoliberalismo
com uma fidelidade de deixar fundamentalistas ortodoxos chocados.
O foguetório e as buzinas
voltaram. Tião fechou a porta. Manezinho Pinico cobriu
a cabeça com o pano que o cego usa para limpar o balcão dos respingos de
cerveja e cachaça.
- Se param aqui em frente,
vou buscar minha garrucha! ameaçou Tião.
A carreata passou.
- Bom... – Asclépio
retomou a polêmica: Por que o marasmo? A teoria não explica...
- Explica, sim. A questão
é que o dólar na cueca não é o problema.
Houve um silêncio perplexo
e respeitoso no ambiente.
- A mentira – continuou
Laurinho – é a pior de todas as corrupções. Virou uma Weltanschauung,
uma cosmovisão. Portanto...
Manezinho Pinico deu um pulo na direção porta e voltou a
cobrir a cabeça.
- Lá vem outra carreata! exclamou,
antes de enfiar-se atrás do balcão.
- Então... – Laurinho tentou
retomar a palavra.
Mas neste ponto Dr.
Asclépio Plúmbeo Da Vênia, interrompeu-o para citar um trecho de O diário do
Beagle, de Darwin, de 1832, que anda lendo por estes dias: “Se ao que a
natureza concedeu aos Brasis o homem acrescesse seus justos e adequados
esforços, de que país poderiam jactar-se seus
habitantes!”
E arrematou, com a pose de
quem passa o dia citando Cícero e Júlio César:
- Tá
maus.
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