A nobre arte do xingamento

 

 

Roberto Gomes

 

Relendo Lima Barreto – O triste fim de Policarpo Quaresma –  fui assaltado por uma febre em encontrar uma solução para a miséria moral brasileira. E cheguei à conclusão de que o Brasil precisa recuperar a arte do xingamento, que já foi mais refinada, mais contundente e muito mais eficaz.

Não defendo uma revoada de palavrões, até porque o palavrão deve ser usado com economia, no momento certo, pois, quando corriqueiro, torna-se inútil e desagradável. Nada a ver, portanto, com estes palavrões que circulam em letras de funk, de hip-hop, e mesmo em – Deus nos livre! – canções românticas. Sou um sujeito sóbrio, jamais recomendaria tamanha tolice.

Quando vejo as torcidas de futebol cantando hinos de guerra com palavrões apocalípticos, fico pasmo. Primeiro, noto que a quantidade palavrões é pouca, aqueles três ou quatro que os leitores lembram neste momento. A pobreza vocabular também afetou a triste patriazinha brasileira neste setor: estamos pobres de palavrões. Depois, me assusta ver aquelas menininhas e menininhos adolescentes esbravejando palavrões hecatômbicos com uma alegria juvenil, imberbe e inocente de anjos de Rafael.

Não se trata disso, portanto.

Defendo o xingamento, que não pode ser dito por qualquer um e nem de qualquer forma, pois o xingamento feito por desqualificados vira palavrão, enquanto o palavrão pode ser usado por qualquer desqualificado. Desta sutileza resulta a nobre arte.

Por exemplo: biltre. Concordo que poucos sabem hoje o que é biltre. Pois é o abjeto, o infame, o vil. Imaginem: numa destas reuniões de CPI, alguém diz ao parlamentar que acaba de mentir numa acareação:

- Vossa Excelência é um biltre!

Pronto. A casa viria abaixo. A República oscilaria. Palavrões que envolvem genitores do patife ou palavras escatológicas, jamais poderão ter o impacto deste xingamento sonoro, cortante, definitivo: biltre! A carreira do cujo estaria encerrada.

Aposto que o xingado se encolheria na poltrona, pediria para morrer, humilhado até à quinta geração, transformado num nanico moral. Deste dia em diante seria apontado na rua, entre chacotas e gargalhadas:

- Lá vai o biltre! Olha o biltre!

Não tornaria a aparecer em público sem sofrer humilhações.

Outra possibilidade é energúmeno. Ao mesmo tempo endemoniado, fanático, possesso. Há uns tantos senadores e deputados que entrariam na categoria, além de ocupantes de cargos no executivo. Diante de suas trapalhadas, bastaria que alguém exclamasse:

- O Nobre Colega é um energúmeno!

Além de ser obrigado a correr ao dicionário para saber se fora ofendido ou elogiado, o xingado carregaria pelo resto de seus dias a pecha indelével: energúmeno! Ficaria reduzido àquilo que Dalton Trevisan chama de barata leprosa – um refinado xingamento, aliás – para sempre escorraçado do convívio humano.

 Haveria uma notável limpeza moral, um saneamento dos costumes e da linguagem. O Brasil seria outro. Graças à nobre arte do xingamento.

Nesta minha bem intencionada campanha pela purificação do estado ético da nação, lembro que são muitas as possibilidades de xingamento, quase infinitas. Além do biltre e do energúmeno, teríamos o capadócio, o palerma, o larápio. Notem os leitores que ser xingado de ladrão não fere a nenhum homem público. Agora me digam: como reagiria o sujeito chamado de larápio? Tremeria nas bases, arruinado para sempre.

Poderíamos criar torneios. Os jornais publicariam questionários de múltipla escolha, colocando de um lado nomes notórios de autoridades, de celebridades, de exibicionistas, de gente arroz de festa, de enganadores, de pequenos e grandes ladrões, de burocratas, de arrivistas, e, de outro, os diversos xingamentos: biltre, energúmeno, capadócio, doidivanas, pancrácio, doido varrido, néscio, cabotino, pulha, boçal. E um clássico: canalha, o mais estrondoso dos xingamentos. Além de um roubado aos nossos irmãozinhos portugueses: salta pocinhas. Os leitores devolveriam os questionários devidamente preenchidos. O resultado seria publicado na próxima edição e os mais votados em cada categoria sumiriam do mapa. Pulverizados de vergonha, iriam morar no interior de Tanganica.

Seria a redenção do Brasil.

 

e-mail: robertogomes@criaredicoes.com.br