A leitura sem fim

Roberto Gomes
Como todos aqueles que um dia
foram fisgados pelo vício da leitura – as razões e as
motivações são as mais diversas possíveis, mas o resultado é um só – eu também
coloquei na cabeça que deveria ler todos os livros do mundo. Aos treze anos,
quando a febre começou, compreende-se. Nessa idade podemos tudo e teremos tempo
para tudo. O problema é que sabemos pouco. Uma das coisas que não sabemos: o
número de livros existentes no mundo.
Muitos anos depois, quando eu já
havia me livrado da agonia em ler “todos os livros do mundo”, encontrei em uma
entrevista de Wilson Martins a mesma tara leitora. Disse o Wilson que seu
projeto de leitor iniciante era ler todos os livros existentes e foi em frente
até descobrir que isso era impossível. É bem verdade que ele acabou lendo muito
mais do que todos nós juntos, simples mortais mais ou menos preguiçosos – o
homem era uma fera nesse ofício de leitor, o que sempre me deixou com uma
enorme inveja.
O que importa é que, tendo
passado a vida com o nariz enfiado no meio de livros, nem por isso vi diminuir
sensivelmente duas coisas: a quantidade que restava a ler e minha sensação de
que, por mais esforço que fizesse, não conseguiria diminuir os domínios sobre
os quais eu continuava tendo uma robusta ignorância.
Os livros que não li, portanto,
são infindáveis, além de aumentarem a cada dia, pois sempre há quem escreva
novos livros – aliás, em certos casos o número de autores me parece maior do
que o número de leitores. Essa equação que descreve os livros que não li,
portanto, se assemelha àqueles problemas matemáticos nos quais surge um número
qualquer que jamais podemos limitar: ele cresce sempre e passa a ser
considerado infinito. Um infinito numérico, não o infinito atrás do qual andam
os filósofos, os teólogos, os místicos e os astrofísicos.
Foi quando cheguei a nova etapa como leitor. Percebi que existiam, além dos
livros lidos e dos livros que não li, uma quantidade infinita de livros que
jamais lerei. Trata-se de início de uma impossibilidade física – pela
quantidade infinita – mas que se associa a um fator existencial: o tempo. Ou
seja, o tempo que cabe a cada um de nós viver. Foi
quando lembrei, vejam só, do famoso e divertido
play-boy Jorginho Guinle, que tinha uma coleção assombrosa de discos (LPs 33 rotações) com tudo que havia de melhor no mundo do
jazz. Quando li uma descrição do que havia nessa discoteca, fiquei pasmo. Fui
assaltado por um desejo de pedir licença para ouvi-la do começo ao fim. Nova
decepção. O próprio Jorginho confessou em entrevista ter feito umas contas
esquisitas. Calculou o número de discos que possuía, multiplicou pelo número
médio de canções em cada um deles, em seguida multiplicou pelo tempo médio de
duração de cada faixa – concluiu que não lhe restava tempo de vida para ouvir
tudo aquilo, mesmo que não fizesse outra coisa. Se bem me lembro, Jorginho doou
sua discoteca, ou a maior parte dela, e ficou com aqueles discos que
considerava essenciais. Era o possível. Era o tempo que lhe restava.
Eis como se aprende que a vida é
limitação e frustração contínuas. O mesmo que vale para os discos, vale para os
livros, os lugares, as pessoas, os filmes, os poemas, os vinhos – tudo, enfim.
A humildade é algo que aprendemos à custa de pancadas que o infindável de tudo
e os limites do tempo nos dão no lombo.
Resta, portanto, selecionar. Aos
poucos, a biblioteca que acumulamos vai nos parecendo
demasiada. Lemos tudo ou quase tudo, mas o melhor seria escolher aqueles que
realmente são nossos preferidos. Aqueles que relemos – ao menos é o que faço –
de forma meio aleatória, numa espécie de vagabundagem literária. Pego o livro,
releio uns trechos sem pressa, saboreando cada palavra e parágrafo, e depois
devolvo o volume à prateleira. Voltarei a ele um dia. Se voltar.
Mas, como a sede de infinito –
não mais no sentido numérico – parece não nos abandonar, volta e meia me
assalta a ilusão de que, entre tantos livros, deve haver algum que me
proporcione o prazer que me causou outra categoria de livros: aqueles que
caíram em minhas mãos na hora certa. É uma experiência única: nós e o mundo
jamais seremos os mesmos. O que reacende a esperança.
É quando recomeço.
e-mail: roberto.o.gomes@gmail.com