A Internet será culpada?

Roberto Gomes
Já ouvi muita gente reclamando da quantidade de lixo que,
via internet, é atirada em nossos endereços de e-mail. No meu caso, passo mais
tempo apagando ofertas as mais diversas do que lendo coisas que realmente me
interessem. Mas não culpo a internet, por quem tenho simpatia por inúmeras
razões.
Pensem na velha caixa de correio, aquela junto ao portão de
casa, que desde sempre foi atacada por papelórios das mais diversas origens. Em
épocas de eleições ou de liquidações – duas coisas semelhantes, aliás – elas eram
entupidas com panfletos, sem falar nas ofertas de encanadores, consertadores de
telhados e arrumadores de portões eletrônicos. Tudo isso já enchia as caixas de
correio e ninguém culpava a existência delas pela invasão de privacidade.
Mas há outra acusação à internet que me parece também
imprópria, ainda que mais grave. Trata-se da ideia de que hoje temos informação
demais à disposição das pessoas, o que complica as cabeças já não muito ordenadas
dos habitantes do século XXI.
É até verdade. Ouvi, para citar um caso, um jornalista
carioca muito conhecido comentando que o mal da internet resulta do fato de que
hoje qualquer um pode acessar textos os mais diversos, pois obras antes de raro
acesso estão ao alcance de qualquer um que saiba clicar um mouse.
Isso tem cheiro de preconceito. O que estraga a circulação
de ideias na internet é a falta de hábito de não se checar as informações.
Falta um aparato crítico de leitor. Um texto escrito por um desses fazedores de
palestras de autoajuda circula na rede como sendo de Aristóteles. Ora, Aristóteles
falando em sucesso pessoal é no mínimo surrealista, senão um disparate. Equívoco
que tem a ver com a falta de preparo de quem acessa a informação, não com o
meio, que apenas tornou tal acesso mais fácil.
Por outro lado, esse tipo de comentário esquece um detalhe.
A internet não criou os textos hoje disponíveis nela. Os textos – seja uma
comédia de Molière ou algumas piadas do Costinha – já
existiam e estavam disponíveis em bibliotecas, arquivos de jornais etc. A
diferença é a facilidade de acesso, não a
existência de uma multidão de informações. A multidão infinita de informações é
de sempre. E é muita. Diz-se que Aristóteles, aliás, foi o último sujeito que
pode ler tudo que se publicara até sua época. Duvido.
Consultar livros em bibliotecas, porém, demanda tempo,
deslocamento, certo conhecimento de como uma biblioteca funciona etc. Em muitos
casos, nem isso basta, pois alguns documentos, tais como edições fac-similares,
manuscritos, mapas, fotos, arquivos etc., só podem ser consultados em Paris ou
Estocolmo. Com a internet, porém, é agora possível dar um passeio virtual pelo
Louvre ou consultar obras raras recolhidas por José Mindlin.
Quero dizer uma coisa simples. As obras, a infinidade de
documentos, já existiam e dormitavam nas bibliotecas. Hoje, caso tenham sido
disponibilizadas, podem ser acessadas em tese de qualquer parte do mundo.
Não entendo, portanto, restrições a um meio – a internet –
que afinal facilitou o acesso à informação, seja ela de que natureza for. A
escolha de sua natureza e o uso que se fará de tais documentos, dependem do
usuário, do leitor. Se despreparado, copia um trecho de Platão e coloca embaixo
a assinatura do Paulo Coelho – ou, pior ainda, não vê diferença entre o
filósofo grego e o autonomeado bruxo. Mas nada disso tem a ver com a Internet e
sim com o preparo (ou falta de) quem a usa.
Todo sujeito que começa a se interessar por livros e
leitura, alimenta num certo momento a fantasia de ler todos os livros do mundo.
Wilson Martins confessou que passou por essa fase. Descobriu mais tarde que era
uma impossibilidade. Livros e documentos existem numa quantidade impressionante
e, consideradas as limitações humanas, são infinitos.
A verdade é que diante da infinidade de estímulos
possíveis, precisamos selecionar aquilo que num dado momento nos interessa. Caso
eu esteja pregando um prego, preciso recuperar informações a respeito do prego,
da madeira e do martelo – e dos perigos que o uso destes três ao mesmo tempo
pode acarretar. Quando pretendo ler um texto, preciso avaliar sua
autenticidade, sua importância relativa, o contexto intelectual de seu autor, a
época em que foi escrito etc.
Portanto, educação não é empilhamento de informações. Se
não disponho de um aparato crítico, acabarei acertando uma martelada no dedo.