A inglória peleja dos feromônios

Roberto Gomes
Lá estava ele,
na companhia de seu gato siamês estrábico, chamado Floriano, navegando pela
internet, quando apareceu a janelinha no canto do navegador: “quer conversar?”
Levou um susto. Que diabo era aquilo? Examinou os arredores do notebook como se outra mão houvesse disparado o teclado.
Não havia outra mão.
Olhou para a
tela e lá estava: “então? não quer?”
Foi assim que
descobriu como encontrar alguém com quem conversar. Sem enfrentar trânsito,
barulho de boteco, música chata, pagar a conta. Agradeceu aos deuses da
informática: estava livre da solidão e da insônia.
Teclou: “quem é
você?”
Veio a
resposta: “quem você quiser. kkkkkk.”
E ele, chocado:
“que kkkkkkk é esse?”
Isso foi há uma
semana, quando começara, como disse aos amigos, a se emailzar com uma dona. Viriato, amigo do trabalho, advertiu:
“Te cuida. Tu pensas que é uma dona, esbarras num desses tipos sarados e
bigodudos.”
Era uma dona,
sim, insistiu. Tanto que, depois de umas conversas sobre solidão, ela começou a
falar de filhos, do trabalho, da casa e de novo da solidão. Só uma dona para
fazer isso. E se chama Teodora. Isso lá é nome de guerra?!
Viriato
calou-se e aceitou.
Mas, quando ele
quis saber detalhes sobre Teodora, ela se recusou a falar em medidas, fosse de
busto ou quadril, preferências sexuais, experiências anteriores. Só declinava a
altura, os olhos castanhos, os lábios finos. E, espantosamente, a idade: 40
anos.
“E a sua
idade?” perguntou ela.
Que idade
terei? ele se perguntou, alisando a careca conhecida
como a mais brilhante do instituto onde trabalhava. E calculou: quem garantia
que ela tinha 40?
Teclou 50 anos, escondendo os cinco últimos,
aqueles em que estava na direção do instituto – aquilo não era vida, não
contava. E insistiu com Teodora: “nessa solidão, você não fica pensando em
sexo? Essa nossa conversa não agita os seus feromônios? Os feromônios não me
dão sossego – e completou, didático: como os
feromônios são substâncias químicas que permitem o reconhecimento mútuo e sexual dos
indivíduos, exigem a presença física, ou seja, que se esteja ao alcance do excretor. Na internet, não dá.
Você não quer se encontrar comigo?”
O cursor ficou
piscando na tela. Um minuto, dois, cinco minutos. Que teria acontecido? Teclou:
“oi, você ainda está aí?” Ela respondeu, um longo
minuto depois: “fiquei chocada, por isso não respondi. Você falou em sexo”.
O pior é que
ela escrevia você com cedilha. Quem escreve você com cedilha é capaz de tudo.
“Que mal em falar de sexo?” perguntou.
Ela metralhou, impiedosa: “sei não, você parece um pecador,
obcecado por sexo. Eu desejo um relacionamento sério. Você tem religião?
Acredita em Deus? Vai à igreja? Tem orado?”
Respondeu: “sou
católico apostólico flamenguista, minha querida”.
Ela desligou. O
cursor ficou ceguinho na tela.
Dois dias
depois, ela mandou a primeira de uma dezena de mensagens: um trecho do antigo
testamento, seguido nos dias seguintes por outros trechos da Bíblia. Em
vermelho, advertências ao pecador. Depois, artigos de Rubens Alves, Lia Luft, Paulo Coelho. Seguidos
por apresentações do PowerPoint com pensamentos elevados, regras para o
controle da sensualidade, o poder dos banhos frios, das leituras piedosas. No
final da semana, ela voltou a aparecer no canto da tela: “então, leu os textos
que mandei?”
E ele: “Olha,
dona Teodora, vai me desculpar, mas na verdade eu tenho 19 anos, sou mais
estrábico do que o meu gato Floriano, fumo muito, bebo demais, sou mesmo um
pecador, uma vítima dos feromônios. Acho que cometi uma molecagem escrevendo
para a senhora. Era tudo mentira, menos os feromônios,
é claro. Me desculpe.”
E ela:
“Dezenove aninhos? Não me diga! O que era mesmo que você queria saber sobre
sexo?”
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