A esquizofrenia e o poder

Roberto
Gomes
A primeira notícia, saída há algumas semanas, me deixou
estarrecido. Ingênuo, pensei que produziria um tsunami
na imprensa, na opinião pública, entre os chamados intelectuais. Nada aconteceu.
No dia seguinte, já se falava de outra coisa que seria substituída por qualquer
coisa dois dias depois.
Nessa semana, outro anúncio me deixa no mesmo estado. Nada
acontecerá? Continuo o ingênuo de sempre?
No primeiro caso, o senador Sarney fez uma exposição no Senado
para lembrar momentos importantes da vida parlamentar, histórias e personagens da
chamada Casa. Detalhe: não havia uma só linha, uma única nota, uma solitária
foto de um dos episódios mais tumultuados da vida nacional: o impeachment do Collor.
A segunda notícia diz que – também com o patrocínio de
Sarney, o onipresente – agora acompanhado por Collor e contando com a omissão
vergonhosa de parlamentares, está para ser aprovada uma medida que estabelece
que documentos tidos pelo governo como “top secret”
poderão continuar assim para sempre.
Os dois ex-presidentes devem saber o que gostariam de
esconder.
Lembrei-me de um caso clássico. As fotos
das quais Stalin, reescrevendo a história, apagou personagens que
“traíram a causa”. Na foto, Lenin discursa para uma multidão. Ao seu lado
esquerdo, num degrau, vemos um sujeito em uniforme militar que observa a
multidão. É o que vemos na foto original. Na foto maquiada, o personagem na
escada sumiu.
Ocorre que o nome dele era León Trotsky e seu desafeto,
Stalin – futuro mandante de seu assassinato – resolveu eliminá-lo da foto. O
inimigo foi defenestrado do comício.
No caso presente, não se tratou de eliminar um inimigo, mas
de proteger um amigo. Color não aparece na exposição da história do Senado
porque Sarney resolveu poupar o amigo de se ver ou de ser visto sendo afastado
da presidência. Sabemos que o afastamento se deu por iniciativa do congresso,
ainda que Collor houvesse assinado uma renúncia tática e malandra – o senado a
ignorou e votou o impeachment. No entanto, na abertura da exposição, Sarney,
fazendo pose de espírito evoluído e sem mágoas, declarou que aquele havia sido
um episódio menor, sem grande importância, não valia a pena registrar.
No segundo caso, os governantes da hora decidirão o que
deverá ficar secreto até o final dos tempos. Decreta-se assim que o Brasil
perderá parte de sua memória para sempre.
Trata-se de um crime hediondo, manifestação da síndrome que
assalta os que assumem qualquer nesga de poder. Um tipo muito particular de
esquizofrenia: o sujeito entra num mundo paralelo no qual se sente no direito
de mentir, deformar os acontecimentos, distorcer dados, escamotear informações,
inventando explicações ora cínicas, ora macunaímicas,
para a violência política que acaba de cometer.
É assim que os políticos profissionais se tornam imunes ao
óbvio. Observem os leitores o seguinte. Quem de nós não sabe que aconteceu algo
chamado mensalão? Só os muito distraídos. Todos sabíamos.
Mas eles, Lula em primeiro lugar, negaram. Quem não sabe das falcatruas da privataria, do mensalão mineiro, do mensalinho,
dos dólares na cueca, das ilegalidades que escondem o enriquecimento de
Palocci, das manobras judiciais para evitar que Daniel Dantas vá em cana? Todos sabemos. Sabemos
também que é preciso que a história do país venha à tona e que todos tenham
direito de conhecê-la. No entanto, quatro ou cinco meliantes se reúnem em
Brasília e, para acobertar malfeitos de ex-presidentes, querem passar uma
borracha corretiva e malandra na memória nacional, já de natureza tão débil.
Por isso a exposição organizada por Sarney deveria, a meu
ver, ter provocado uma verdadeira convulsão nacional contra a mentira, a farsa,
o acobertamento. O mesmo deveria acontecer com essa bestialidade que
representará cassar eternamente a memória nacional. Essas duas coisas,
associadas, decretaram na verdade a morte de qualquer possível nação brasileira
decente.
Mas ainda não foi dessa vez que o país despertou. O clima
bovino venceu. Motivo pelo qual logo teremos novos Paloccis,
novos mensalões, outros Daniel Dantas e mentiras para todas as serventias.
A letargia continuará. É o Brasil.