A cidade e seu improvável
livreiro

Roberto Gomes
Quando cheguei a Curitiba,
em 1964, me senti em Nova York. Que cidade, eu me perguntava, teria tantas
livrarias? Eu vinha de uma cidade sem livrarias – em duas papelarias, havia uma
estante com alguns livros, não mais. Por isso, durante alguns anos, ignorei
tudo que se passava além dos limites da XV e da Voluntários
da Pátria: ali estava tudo de que eu precisava.
A geografia que eu
percorria era formada pela Ghignone, na XV, e pela Curitiba
e um sebo, que ficavam na Voluntários. Havia ao menos
outras duas, uma junto à universidade, na Presidente Faria e, outra, na Monsenhor Celso. Sem falar, é claro, da Biblioteca
Pública.
Nesse circuito, algum
tempo depois, eu procurava um livro de Arnold Hauser,
História Social da Arte. Como não havia tradução brasileira, fui
informado de que poderia encontrar uma edição em espanhol na livraria do Vignoles.
Era o nome do livreiro. Um sujeito esquisito, me advertiram.
A livraria ficava, se não
me engano, no primeiro andar da esquina da Rua do Rosário com a Praça
Tiradentes. Entrava-se por uma escada estreita, de madeira. Subi passo a passo,
os degraus rangendo a lembrar um filme de terror. Ninguém. Prateleiras, livros,
um balcão. Andei de um lado para outro, pigarreei, arrastei o pé no chão. Já
estava desistindo, quando emergiu, por detrás do balcão, um sujeito que me
perguntou:
- O que você quer?
Assim, sem rodeios, um
golpe de direita no queixo. Era um homem careca, de cara
monolítica e sobrancelhas tensas. Ele balançou o corpo – parecia não se
conter dentro de si – uma das mãos na cintura e outra sobre o balcão. Repetiu a
pergunta:
- O que você quer?
Naquela época eu era um tímido profissional, capaz de horas de mutismo e de silêncios
abissais e intransponíveis. Mal consegui dizer:
- Procuro um livro...
Hesitei. Súbito, o nome do
livro sumira de minha cabeça. O careca atacou:
- É claro que procura um
livro. Mas qual é o livro?
- História Social da
Arte,Arnold Hauser – lembrei, de soco.
Afastando-se ligeiramente,
ele ergueu o tronco que inclinara para falar comigo. Retirou a mão que estava
sobre o balcão, mantendo a outra na cintura e continuou, no estilo boxeador:
– E por que precisa deste
livro?
Eis uma pergunta que eu
não me fizera. Ou seja: queria ler, apenas isso. Já encontrara várias
referências a ele em artigos, em livros, em jornais.
- Quero ler, murmurei.
- É claro, para que iria
querer um livro, não é mesmo?
Ficamos os dois, olhos nos
olhos, preparando o bote. Boxe puro. Temi que eu pudesse passar da timidez
mórbida à agressividade mais desastrada, o que me acontecia na época. Por
sorte, ele relaxou, ergueu os ombros, fazendo com que seu pescoço sumisse no
meio deles, e estaqueou os braços sobre o balcão:
- Olhe, meu rapaz. Eu
tenho o livro. Está ali, na prateleira ao lado da janela. Mas... – esperei pelo
pior – ...seu professor, ou seja lá quem lhe indicou este livro, não explicou
uma coisa, provavelmente porque também não sabe.
E me disse que eu perderia
tempo lendo aquele livro. Está na moda, comentou com alguma repugnância, todo
mundo anda lendo, todo mundo indica, mesmo sem ter a menor noção do que se
trata. Moda, compreende? Moda é moda. Acontece que é um livro teoricamente
fraco, com uma visão tosca das relações entre sociedade e arte. O autor, esse Hauser, leu Marx e não entendeu nada.
E arrematou:
- Bom, o livro está ali.
Se quiser comprar... Não aconselho.
Não comprei. Sumi escada
abaixo
Só fui ler o livro meses
depois, comprado no sebo da Voluntários.
Em todos os casos, era
outra Curitiba. Em qual das livrarias de hoje eu poderia encontrar um espécime
raro daqueles: um livreiro que lia os livros que vendia, que tinha uma opinião
a respeito deles – qualquer que fosse – e que, por discordância teórica e
ideológica, preferisse não vendê-los a um estudante incauto?
Anos depois, me tornei
amigo do Vignoles, quando ele já deixara de ser
livreiro. Seguimos no estilo boxeador, como sempre, com diretos e cruzados de
lado a lado. Uma grande figura. Um livreiro que sabia falar sobre os livros que
vendia.
Era outra Curitiba. Talvez
outro mundo.
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