A chuva, o universo e
seus desacertos

Roberto Gomes
Talvez seja possível amar
a chuva.
Não sem restrições. Amá-la
como quem lembra um amor perdido há muito e que jamais aconteceu. Amar ao
longe. À distância.
Não aquela chuva que
invade ruas e casas, nem aquela que risca relâmpagos no céu e distribui
estrondos que despertam medos vindos da infância.
Mas aquela
chuva miúda, insistente, chatinha, que parece não acabar nunca. Sabemos
que ela mente. Chuva, aliás, é bicho mentiroso, anuncia que vem e desaparece,
súbito nos pega no meio da rua sem qualquer proteção. Mesmo assim, acabará
algum dia, como tudo acaba. Chovendo.
Paramos em frente à janela
e vemos a chuva lá fora. Impossível imaginar de onde brota tanta água, tamanha
inquietação nos céus, os ventos súbitos que golpeiam a vidraça. Podemos pensar
que alguém, neste momento, corre por alguma rua, protegendo inutilmente a
cabeça com um jornal. Mas não pensamos em nada. A chuva tem esta propriedade líquida
de desfazer pensamentos, de lavar inquietações, de nos deixar num estado de
meditação que mesmo os melhores monges só experimentam depois de anos de
sacrifícios.
Diante do inevitável da
chuva, deixamos o mundo seguir sua rota, sem nos atormentarmos com o que deveríamos
ou não fazer. Chove – e tudo fica adiado para depois da chuva. Não iremos ao
parque caminhar, nem telefonaremos para marcar um compromisso. O mundo fica em
suspenso.
Parados diante da janela,
mal nos damos conta de que já se passaram quinze minutos sem que nos ocorresse
algo a fazer, uma providência a tomar, um esquecimento a ser corrigido. Podemos
acender um cigarro, bocejar, espreguiçar, observar como os sabiás aproveitam o
rebuliço causado pela chuva para catar minhocas no gramado.
Súbito, nos lembramos de
alguma coisa, mas não como quem precisa ou decide lembrar. É que nossa memória, com a chuva, fica de vagabundagem, desatenta
de lidar com as coisas do mundo. E recapitulamos: o frio sentido num dia assim,
no inverno, na distante cidade de São Francisco de Paula, na serra gaúcha. O
passeio pela praia da Armação numa manhã enevoada. As 236 páginas de um romance
que lemos sob as cobertas, num tiro só.
Seria possível amar a
chuva, pensamos. Mas seria possível viver num mundo chuvoso para sempre? Não. Pois
essa é outra propriedade da chuva, no seu exercício dissolvente: elimina a
distância entre o certo e o errado, fulmina todas as verdades, mesmo as mais
simples, e avança ao longo deste dia que transforma em quase silêncio. Vemos a
chuva, ouvimos seu barulho repetitivo e chato, mas, sem o perceber, acabamos
embalados por ela.
Nada a fazer. Nada que
deva ser feito ou pensado.
Olhamos o livro largado
sobre a mesa e nos ocorre que seria uma boa hora para mergulhar na leitura
tantas vezes adiada. Mas, neste dia que se desfaz em água, nem isto nos atrai.
Acabamos pensando, por
contraste, no tanto que corremos de um lado para outro, vítimas de preocupações,
que afinal costumam se revelar inúteis. O filho que não chegou e já são três
horas da manhã, a mãe idosa e doente que precisamos visitar, a saudade do pai,
que morreu há mais de vinte anos e parece que foi ontem – pois a chuva dissolve
não apenas o espaço, mas também o tempo. Ontem mesmo o pai acenava do outro
lado da rua, conversando com amigos, e passávamos fazendo pose, respondendo com
um breve meneio de cabeça – aos dezesseis anos é preciso se mostrar adulto e compenetrado.
Amar a chuva, mas apenas
neste momento. Por alguns momentos. Se ela continuar dia afora, teremos razões
para reclamar de tudo, da caminhada não feita, do encontro desmarcado, do
desaparecimento do guarda-chuva que, como sempre nos dias chuvosos, some de
casa.
Depois dela virá o sol e o
mundo retomará sua rota alucinada. O planeta – que, poucos sabem, fica
estacionário na galáxia enquanto chove – voltará a girar, o telefone tocará,
lembraremos de coisas urgentes a reclamar desta vida doida que levamos,
enquanto num canto de nossa memória ficará para sempre o instante em que a
chuva dissolveu o universo e seus desacertos e nos deu a paz possível entre
tantos dias de sol.
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