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TENDE
PIEDADE DE MIM, SENHOR*
Roberto Gomes
Ah, Senhor, sei que tudo isso é pecado e que por muito menos almas
melhores do que a minha ardem para todo o sempre no fogo dos infernos. Mas
que posso fazer se sou fraco e se as mulheres são feitas de uma matéria
tão doce, agradável ao tato, ao olfato, à visão,
ao gosto, à audição de seus flauteios agudos de voz suplicante?
Que posso fazer, se o Senhor as fez com aqueles peitinhos duros, desafiadores,
fosforescentes, tremeluzentes? Como me defender destas coxas tensas que lhes
destes, roliças e cobertas de penugem macia - e os dedos mindinhos
que elas têm, como posso? Convenhamos que o Senhor não nos ajudou
em nada na luta contra o pecado. É tentação demais para
um pobre sujeito que vive enfiado aqui neste fim de mundo, entre as paredes
sombrias de um seminário. De que adianta me prostrar de joelhos, grudar
as mãos postas na testa, rezar em voz alta na capela vazia, sentindo
o eco a debater-se contra as paredes nuas, as colunas úmidas, os nichos
perdidos nas alturas infinitas? Como posso, se elas não são
como deveriam ser? Retas, duras, sem bunda, coxas, ventre, pelos aveludados,
boca carnuda, sem olhos pedintes, sem seios atrevidos. Deveriam ser desagradáveis,
nulas, nadas, trastes. Não bastaria que fossem feias, mas repugnantes
e insossas. Pois mesmo nas feias a Natureza - esta inimiga dos puros - resolve
colocar um traço de luxúria irresistível. Uma boca entreaberta,
uma curva de ombros, uma unha, talvez um modo de olhar. A sobrancelha, a mecha
caída na testa, a voz rouca ou o olhar ligeiramente estrábico.
Pronto. É o que basta. Mesmo nas muito feias, Senhor. Como me defender?
Já tentei de tudo. Um dia vi minha prima trocando de roupa - foi sem
querer. Subi no muro, olhei pela janela do quarto e lá estava ela.
Branca, ondulante, luminosa. Por que tanto sabor naqueles gestos? Por que
tanta graça nos pés? Por que tanto vigor nas nádegas?
Passei dias de mão no bolso, segurando o impertinente para o lado esquerdo.
Neguei o que ele queria. Amarrei o indecente com um barbante, prendi com esparadrapo,
embrulhei num chumaço de algodão molhado para ver se a umidade
amolecia seus desejos. Inútil. O dia inteiro rijo, investigando em
todas as direções, curioso como uma cabeça de tartaruga.
Posso culpá-lo? O pobre sofre mais do que eu. Melhor dizendo: eu e
ele sofremos demasiado. Por mais que eu tente me espelhar nos Santos vitoriosos
- Antônio, Antão, Jerônimo, Agostinho - por mais que repasse
em meu corpo flagelado os sofrimentos de Santa Tereza D'Ávila, por
mais que leia a Bíblia, o catecismo, as encíclicas papais mais
severas, esta inquietação não cessa e termino abrindo
o Livro nos Cantos de Salomão - O meu amor meteu a mão pela
fresta da porta e as minhas entranhas estremeceram por amor dele - certo de
que os interpreto de forma heterodoxa e de que Salomão está
em algum canto do inferno pagando por sua libido desenfreada. Eis porque eu
vivo rezando, de joelhos, rejeitando comida, passando a pão e água,
enquanto os outros seminaristas jogam futebol, baralho, fazem excursões,
participam de bingos, churrascadas, jogos de cabra cega, tudo isso que a sabedoria
da Igreja providencia no sentido de nos livrar das tentações.
Mas nada disso adianta, Senhor. Há algo de inevitável no destino
dos homens. Quantos santos não queriam ser santos! Queriam ser homens
comuns, viver a vida - mas a santidade os perseguia dia e noite, colocava-se
à frente deles, lhes era oferecida numa bandeja, não os deixava
em paz. Terminaram santos. Outros homens não querem ser ricos, mas
tudo que tocam vira ouro, tudo que os circunda pede apenas um gesto para jorrar
em riquezas. Terminam milionários. Eu, por mais que evite as mulheres,
sou por destino perseguido por elas. Estão em toda parte, me acham
simpático, sofrem com meus olhos tristes, com meu físico frágil,
com minha alma desprotegida. Não mexo uma palha e, no entanto, foi
minha prima, a vizinha solteirona, a viúva que alugou um quarto lá
em casa, a noiva de meu irmão, a mulher de meu patrão no armazém
onde trabalhei antes de decidir pela vida no seminário. Essa foi a
gota d'água que me fez fugir das tentações do mundo -
inutilmente, é claro. Eu no balcão, o marido bebendo chimarrão
na porta do armazém, ela na parte de dentro da casa, por detrás
de uma cortina de tiras de plástico vermelhas e azuis que passavam
o dia balançando a me lembrar que eram uma proteção vulnerável
para uma mulher tão desejada. Abaixava-se para pegar lenha, ajeitava
o sutiã, soltava e prendia os cabelos milhares de vezes por dia. E,
diante de qualquer tarefa pesada, gritava por mim. Vem cortar lenha, Demétrio!
Ajuda aqui com essa caixa! Apanha a panela ali no alto, não alcanço.
Depois, oferecia. Quer um bolinho de fubá? Uma rosquinha, acabei de
fazer. Entregava a rosquinha, deixava a mão escorregar na minha. Sentava
ao lado do fogão, escolhendo arroz, e eu via, por entre as tiras vermelhas
e azuis, as pernas cruzarem e descruzarem, o vestido distraído subir
pelas coxas, o sorriso maroto, os olhos oferecidos. Ai, meu Senhor, debruçada
na janela ao final do dia, enquanto eu fechava o armazém e ia pegar
a bicicleta. Como conseguia expor os seios daquela forma? Como podia se divertir
tanto com meu atrapalho, meus passos trôpegos? Eu cada dia mais amarelo,
mais magro - o marido dizendo: precisa tomar umas vitaminas, guri! - e ela...
ela só ria. Sabia de tudo, sabia que eu chegava em casa atordoado,
não conseguia comer, dormir, deitar, falar, pensar, andar, ouvir. Exausto,
derrotado, me trancava no banheiro sem precisar das revistas de mulheres peladas
que meu irmão colecionava debaixo do colchão. Depois ia para
meu quarto me sentindo um derrotado, um fraco, Senhor, um farrapo humano.
Mas só assim conseguia sair dali para o colégio noturno, só
assim agüentava as chatices dos professores. Até que um dia um
professor de português veio com aquela conversa de que leitura era importante,
alimento da alma - e eu querendo alimentar o meu corpo! - , falou de obras
clássicas e lascou o maior elogio a respeito de Machado de Assis. Ai,
meu Senhor, quem agüenta as besteiras que os professores de português
dizem sobre Machado de Assis? Comprei o livro recomendado, nem abri, deixei
para ler na véspera da prova, um saco agüentar aquela linguagem
empolada, aquelas histórias edificantes que o professor recomendava.
Até que chegou o dia, fui ler - antes passei no banheiro para me acalmar
- e abri num conto chamado Uns braços. Ai meu Senhor, quem foi que
disse que Machado de Assis é o panaca que os professores elogiam? Quem
é que disse que é um chato, um rebuscado, um sujeito de leitura
difícil? Foi minha desgraça. Na mulher do dono do armazém,
eu só via os braços - Nunca ele pôs os olhos nos braços
de D. Severina que não se esquecesse de si e de tudo. Também
a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente.
- e descobri neles detalhes inesperados, virtudes eróticas fulminantes.
Como descansavam na janela, como se estendiam com graça na direção
do fogão, como ficavam soltos no espaço para que eu os roçasse
de leve, enquanto ela ria olhando dentro dos meus olhos. Descobri a literatura
e desgracei de vez com minha vida. Até o dia em que o dono do armazém
foi a Foz do Iguaçu buscar umas encomendas - desconfio que tinha contrabando
no meio - e pediu a meu pai para que eu dormisse duas noites na casa dele,
dando proteção à mulher. Destino - os santos são
tentados pela santidade, os ricos pela riqueza - aos devassos o destino oferece
todas as chances de pecado. Não entendi a razão pela qual aquele
troglodita me escalara como guarda da mulher. Devia me julgar uma besta capada,
um servo impotente, pensei. Depois ela me disse: "Eu pedi, bobinho. Disse
que ia ficar com medo." As mulheres, Senhor, são insondáveis.
Elas nos dominam, nos usam, nos arrastam, fazem de nós o que bem entendem,
reviram nosso cérebro, nosso sexo, conduzem cada um dos gestos de que
nos orgulhamos. Agora entendo uma frase que meu pai vivia repetindo: as mulheres,
quem entende? Ela ajeitou uma cama para mim no chão da sala, me trouxe
um prato de sopa, conversou sobre o tempo, sobre uma roseira que plantara
há duas semanas, ofereceu umas roscas de milho que fizera, perguntou
o que eu passava no cabelo, quis saber minha altura, meu peso, que notas andava
tirando na escola, se tinha moças na minha sala, se eram bonitas. Tonto,
tomei a sopa, comi as roscas, disse que as moças eram feias, engasguei,
ela correu com um copo de água, colocou as mãos - uma rajada
de eletricidade me golpeou a nuca - para apoiar minha cabeça, disse
bebe, e eu bebi a água mais pura e inebriante de minha vida. Passou?
Tudo passaria, ataque cardíaco, erisipela, comichão, nó
nas tripas, ziquizira, desde que aquela mão continuasse me apoiando
a nuca, descesse pelos meus ombros, afastasse a camiseta, dissesse: você
é tão musculoso, já tem um corpo de homem. Como posso,
Senhor? Abandonamos a sala, apagamos as luzes da casa, fomos nos enrodilhando
pelo chão e pelas paredes até chegar ao quarto. Quem vai pensar
no catecismo numa hora dessas? Quem ouve a voz da razão, os conselhos
piedosos de Santo Antônio? Como não sucumbir aos cheiros daquela
mulher? Elas deveriam ser feias, Senhor. Mais que isso: insuportáveis,
repugnantes. No entanto, depois de tantos anos, só consigo encontrar
nelas um mísero defeito: pelos nas axilas. Um dia chegou aqui no seminário
uma senhora devota, queria conselhos para uma crise conjugal. O vigário
não estava. O padre prefeito viajara a Aparecida. Me vi perdido diante
dela, que não parava de falar, agoniada. Andamos pelos corredores infindáveis
deste convento, subimos e descemos escadas, num canto escuro do salão
paroquial ela chorou em meus ombros, me abraçou, enfiou as mãos
entre minhas pernas, sempre xingando o marido e dizendo meu Deus, como você
é forte! - o que repetiu sem fim, numa voz cada vez mais rouca, sussurrada,
até que decidiu arrancar a blusa num gesto enlouquecido. Ergueu os
braços, - sempre os braços! -, e foi então que vi aquele
chumaço negro de cabelos nas axilas. Broxei, Senhor. Apelei para os
santos, suei frio, xinguei o desgraçado que tenho entre as pernas com
todos os palavrões, mas ele não reagiu. Dormia molemente, anestesiado
pela visão assustadora. Só me restou afastar a mulher com um
gesto teatral, evocar o exemplo de Santo Antônio, disparar recomendações
a respeito da fidelidade conjugal. Terminei fazendo um discurso hipócrita
defendendo a reconciliação dos casais e a castidade. Miséria,
pensava, miséria humana sem fim, enquanto retornava ao meu quarto,
onde me tranquei e fiquei chorando várias horas. Foram as axilas peludas.
Por isso eu desejo, em meus delírios, que todas as mulheres do mundo
tenham volumosos montículos de penugem nas axilas e que andem pelas
ruas com os braços erguidos. Seria minha salvação. A
salvação da humanidade, creio. Ocorre que as mulheres sabem
disso e raspam as axilas, deixando apenas aqueles minúsculos sinais
pretos a pontilhar a pele. Pronto: criam outro objeto de tentação.
Por tudo isso, Senhor, estou aqui a seus pés. Sei que não mereço
perdão e me entrego à sua clemência. Admito que passei
a vida mergulhado na devassidão, mas agora me livre da fúria
do tesoureiro do convento, Senhor. Ele me pegou atracado com a mulher dele
num canto do batistério, jurou vingança, só não
morri ali mesmo pela intervenção da mulher, que o segurou pelo
pescoço, e de padre Alípio, que surgiu da sacristia com o turíbulo
em punho e não teve escolha senão desferir um golpe vigoroso
na cabeça do gigante. Se eu for salvo desta, juro que rezo mil terços,
milhões de padre-nossos, bilhões de ave-marias, me dedico à
salvação das almas, torno-me casto como um anjo barroco. E,
embora reconhecendo minha culpa, garanto que me meti nesta enrascada de forma
inocente. Há muito tempo, enquanto meus colegas de seminário
fazem nobres e profundas investigações a respeito dos cinco
argumentos de São Thomás de Aquino a favor da existência
de Deus, ou do argumento ontológico de Santo Agostinho, eu tenho, de
forma miserável, me dedicado a desenvolver uma teoria a respeito da
bunda das mulheres. Sei que é um pecado a mais, sei que isso apenas
mostra o quão degradado sou, mas foi a maneira que encontrei para evitar
tentações piores. Enquanto teorizo a respeito das variedades,
espécies e natureza ético-estética das bundas, não
corro atrás das propriamente ditas. Há duas semanas, a pedido
de meus colegas, expus minhas teorias para um rapaz novato aqui no seminário.
Entre gargalhadas e piadas sujas, fui discursando com seriedade a respeito
deste capítulo que julgo que faltou nos diálogos de Platão.
Pois as bundas são surpreendentes e de alguma forma misteriosa sintetizam
visões de mundo, atitudes diante da vida, posturas psicológicas
e existenciais. Mas são também elaborações complexas
do ponto de vista estético, variações tão refinadas
quanto aquelas que Bach desenvolveu no Cravo Bem Temperado. Com um mínimo
de recursos - as bundas são feitas com muita economia de traços
e volumes, como é sabido - a natureza e a invenção humana
conseguiram criar uma variedade infindável de formas com suas virtudes
intransferíveis. Há as bundas que se desenham para baixo, num
sentido terreno - costumam ser flácidas, moles, desajeitadas. Denunciam
um perfil psicológico pobre e fraco. Há aquelas que se desenvolvem
largas e pesadas, avolumando-se para os lados, e que indicam um caráter
generoso, amável, mas pouco criativo. Outras são miúdas,
voltadas para dentro do corpo, de certo em função de algum volteio
equivocado da coluna vertebral. São bundas perversas, egoístas,
de pessoas avarentas e incapazes de atingir o orgasmo. Evito tais pessoas
(ou bundas) o mais que posso. Em compensação, há aquelas
que são vibrantes, que se erguem com orgulho em suas formas redondas.
Correm o risco da arrogância, mas são desejosas e cheias de energia.
De caráter determinado e voluntarioso, pertencem a pessoas sedentas
de vida e sexo. Em contraste com sua forma redonda, as bundas mais atrevidas
são aquelas de desenho ovalado ou em forma de coração
invertido. Empinadas, felizes, resultam em criaturas cheias de energia, de
grande capacidade criativa - a mulher do dono do armazém era assim.
Mas esta tipologia deve ser aplicada com os cuidados com que Jung recomendava
que se aplicasse a teoria dos tipos psicológicos. O que existem são
formas mescladas, com infinitas variações e sutilezas - jamais
os tipos puros. Por isso é preciso associar à análise
das bundas o olhar crítico a respeito das pernas que as sustentam,
da cintura que as adorna, do ventre que, por oposição, faz com
que se integrem num único volume erótico e estético,
do tronco, pescoço, cabeça, braços, pés, mãos,
que proponham uma solução de conjunto, pois é preciso
que se desenvolva um pensamento a respeito das bundas que não esqueça
a totalidade humana. Eis, Senhor, um resumo das minhas teorias. Embora seu
objeto possa ser resultado de minha perdição diante do pecado,
não creio que sejam inteiramente desprezíveis e incapazes de
refletir a respeito do ser humano. Na bunda há forma estética,
caráter psicológico, traço existencial, aventura ética.
Mas é claro que meus colegas não levam nada disso a sério
e só faziam rir feito doidos. Quando terminei, um deles me disse que
minhas teorias eram incompletas, o que me abalou, pois pesquiso a questão
há muitos anos. Ele foi específico: faltava a bunda da mulher
do novo tesoureiro do convento. Era próxima da bunda em forma de coração
invertido a que me referira, mas generosa e provocante, capaz de sugerir,
ao andar de forma sincopada, algo tão surpreendente quanto um si bemol:
uma bundinha. Fiquei atordoado. Como todo teórico, disparei vários
argumentos mostrando que o caso estava, sim, previsto em minha teoria, eu
apenas não o desenvolvera. Era uma variação, não
um tipo. Discutimos até tocar o sino para o jantar, entre gargalhadas.
Mas eu sofri pela teoria contestada e pelo desejo que se acendeu em mim de
forma torturante: era preciso conhecer aquela bundinha à qual o diminutivo
caíra tão bem. Como se vê, Senhor, as teorias que desenvolvi
com o limpo propósito de me afastar das tentações propriamente
ditas, acabaram me conduzindo ao pecado. É como lhe disse: ao santo,
a santidade, ao rico, a riqueza, ao devasso, as tentações. Nos
dias seguintes vivi em febre, possuído de corpo inteiro, e, apesar
das aulas, dos estudos, das obrigações que tenho no seminário,
me senti compelido a me aproximar da mulher do tesoureiro. Primeiro, procurei
por ele. Um sujeito imenso, careca, com uma morcilha em volta do pescoço,
o que faz com que sua cabeça e seu tronco se unam num só volume
colossal. Fala um português arrastado, traindo a origem alemã.
Pelo que descobri, foi padre. Ele não gostou de mim. Fui gentil. Me
interessei pelos seus livros-caixas, suas fichas de controle, os mil papéis
que espeta num quadro de cortiça que está atrás de sua
mesa. Ele sorriu desconfiado. Perguntei a respeito de débitos e créditos
e quis saber porque fazer um balanço se no fim as duas colunas dão
o mesmo resultado. Ele balançou a cabeça, disse que eu não
sabia de nada, melhor era me dedicar à filosofia e à teologia.
Os números, explicou, exigem um tipo particular de cérebro.
Sem sensualidade? perguntei. Ele me olhou duro. O cérebro, é
claro, expliquei. É, um cérebro sem sensualidade, aceitou. Viramos
amigos. Voltei lá nos dias seguintes, bisbilhotei sua vida, mas ele
não dava uma palavra sobre a mulher. Sem sensualidade, pensei. Hoje
me ocorre que, se eu me dedicasse à matemática, talvez pudesse
me livrar de todas as tentações, mas naquele momento eu estava
preso à obsessão que o satanás me arrumara. Foi quando
ouvi uns passos femininos atrás de mim. Fiquei rijo, temendo um descontrole.
Ela. Ela e sua bundinha. Fiz um esforço enorme para me controlar, sofri
quando beijou o marido. Estendi uma mão encharcada de suor para cumprimentá-la.
Meu colega estava certo, ainda que eu julgue que minhas teorias estejam completas.
Ela era um caso especial. Uma unidade ético-estética que só
os gregos poderiam conceber. Além da beleza, tinha um senso completo
de que era desejada e que poderia dominar quem estivesse ao alcance de seu
olhar. Fiz meu ar triste de menino abandonado, - que as mulheres adoram ?,
olhei sempre no fundo de seus olhos, me entreguei por completo. E ela se deliciou
com a presa cativa. Eu era um escravo. Citei autores, fiz piadas ingênuas,
provoquei risos. Improvisei micagens. Imitei o papa. No dia seguinte fui jantar
na casa deles. No outro, me ofereci para cuidar do jardim. No terceiro, sabendo
que ela ia fazer compras, inventei uma coincidência: esbarrei com ela
na porta do supermercado. No quarto dia eu disse que passaria a tarde inteira
na sacristia, orando. Na mosca: ela foi me encontrar. No silêncio daquelas
paredes erguidas em 1748, senti um arrepio gélido quando, após
três horas de espera, escutei os mesmos passos femininos avançando
pelo meio dos bancos. Eles geravam música sincopada ao se refletirem
nas paredes da sacristia. Bach e Thelonius Monk. Conversamos pouco, pois sabíamos
qual o nosso desejo. Escapulimos por detrás de um balcão com
oferendas, nos escondemos no batistério, falamos quase nada, deixamos
que nossos corpos se entendessem livremente. Ela grudou-se em mim e eu ergui
seu vestido. Acariciei aquela bundinha que me enlouquecera. Era divina, grega,
a perfeição. Aliás, ao contrário das mulheres
divididas, dissociadas, de mal com a vida, ela e a bundinha formavam um conjunto
único - as criaturas divididas parecem andar um passo adiante de sua
bunda, como se a arrastassem a contragosto. Hólos, pensei em grego,
todo. Desde aquele dia, nos encontramos no silêncio da sacristia, na
beira do rio, no muro dos fundos do seminário, no supermercado. Até
que o tesoureiro nos descobriu, dando origem à miséria moral
em que vivo no momento. Não morri por pouco. Mas ele, que no mesmo
dia pediu demissão e se mudou para São Paulo, carregando com
ele a mais desejada das mulheres, jurou vingança, do que nem a tenacidade
e os ares de santo de padre Alípio o demoveram. Agora aqui estou, rezando
os milhões de padre-nossos que o confessor me aplicou, me confessando
um desastre moral e físico, há uma semana neste sofrimento.
Tudo porque as mulheres são tão desejáveis, têm
curvas e montículos de enlouquecer, têm cheiros e sabores divinos,
têm o corpo e a alma com que sonhamos. Por que não as fizestes
repugnantes, Senhor? Ontem, por exemplo, saí daqui aliviado, julgando
que acabara de vencer o Rubicão, sentindo meu corpo e minha alma livres
de todos os desejos. Purificado e santo. Mas não é que na hora
do jantar descobri no refeitório uma nova cozinheira que parece uma
Madona do século XVI? Um destes anjos tímidos que entram em
combustão espontânea quando debaixo dos lençóis.
Marquei um encontro com ela para depois da missa. Amanhã. Tende piedade
de mim, Senhor.
* Conto que faz parte
do livro
Exercício de solidão, Record, 1998.
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